barulho do desejo silenciado
“Abri no capítulo doze e meu olhar foi atraído pela frase ‘Quem quiser pode me culpar’. De que estavam culpando Charlotte Brontë?, eu me perguntei. E li como Jane Eyre costumava subir no telhado enquanto a sra. Fairfax preparava geleias, e ficava olhando através dos campos até onde a vista alcançava. E então ela desejava – e era por isso que a culpavam:
[...] então eu desejava um poder de visão que pudesse ultrapassar aquele limite, que alcançasse o mundo movimentado, as cidades, as regiões cheias de vida das quais ouvi falar mas que nunca vi: então eu ansiava por mais experiência prática do que possuía, mais relações com meus semelhantes, o contato com uma maior variedade de pessoas do que havia ao meu alcance. Eu dava valor ao que havia de bom na sra. Fairfax e em Adele, mas acreditava na existência de outros tipos de bondade, mais vívidos, e queria testemunhar aquilo em que acreditava.
Quem pode me culpar? Muita gente, sem dúvida, e posso ser chamada de insatisfeita. Não podia evitar: a inquietação fazia parte da minha natureza e às vezes me agitava a ponto de doer. [...]
É inútil dizer que os seres humanos devem se contentar com a tranquilidade: eles precisam de ação; e se não conseguirem encontrá-la, irão criá-la. Milhões são condenados a um destino ainda mais pacato que o meu, e milhões estão em revolta silenciosa contra sua sina. Ninguém sabe quantas rebeliões fermentam nas massas de vida que povoam a Terra.

Das mulheres geralmente se espera que sejam muito calmas, mas as mulheres sentem o mesmo que os homens: precisam de exercício para suas faculdades e de um espaço para seus esforços tanto quanto seus irmãos; elas sofrem com restrições rígidas demais, exatamente como os homens sofreriam. E é tacanho da parte de seus semelhantes mais privilegiados dizer que elas devem se limitar a fazer pudins e tricotar meias, tocar piano e bordar bolsas. É insensato condená-las, ou caçoar delas, quando procuram fazer mais ou aprender mais do que o costume diz ser necessário para o seu sexo.
[...]”.
Um teto todo seu (1929), de Virginia Woolf, citando Jane Eyre (1847), de Charlotte Brontë.


